segunda-feira, 2 de março de 2009

Passagem de A Sombra do Vento

Estou a ler A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón. Não podia ser mais divertido! É um livro que tem tudo: mistério, aventura, suspense, humor (muito humor), romance, algum drama.

Aqui fica um bom bocado de humor.

Metemos rumo à praça, onde uma horda de velhotes namoriscava o pombal local, reduzindo a vida a um jogo de migalhas e de espera. Arranjámos uma mesa junto à porta do bar, onde Fermín passou a dar boa conta das duas sanduíches, a dele e a minha, uma imperial, dois quadrados de chocolate e um garoto com um cheiro de rum. De sobremesa tomou um Sugus. Na mesa contígua, um homem observava Fermín de soslaio por cima do jornal, provavelmente a pensar o mesmo que eu.
- Não sei onde é que enfia tudo isso, Fermín.
- Na minha família fomos sempre de metabolismo acelerado. A minha irmã Jesusa, que Deus tenha, era capaz de lanchar uma tortilha de morcela e alho francês e seis ovos a meio da tarde e depois portar-se como um cossaco ao jantar. Chamavam-lhe a Fígados, porque sofria de mau hálito. Era igualzinha a mim, sabe? Com esta mesma tromba e este corpo serrano, bastante magro de carnes. Um médico de Cáceres disse-lhe uma vez que nós, os Romero de Torres, éramos do vínculo perdido entre o homem e o peixe-martelo, porque noventa por cento do nosso organismo é cartilagem, maioritariamente concentrado no nariz e no pavilhão auricular. Na aldeia confundiam muito a Jesusa comigo, porque a desgraçada nunca chegou a desenvolver peito e começou a fazer a barba antes de mim. Morreu de tísica aos vinte e dois anos, virgem terminal e apaixonada em segredo por um padre santarrão que quando se cruzava com ela na rua lhe dizia sempre. «Viva, Fermín, estás um homenzinho.» Ironias da vida.

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